terça-feira, 22 de dezembro de 2009

COP 15 - Tudo certo. Nada combinado

Muitas pessoas se perguntam qual a causa do fracasso das negociações na COP 15. Alguns tinham esperança de que a urgência da situação motivasse os líderes mundiais a ação. Não foi bem isso o que aconteceu. Na verdade, ficou a impressão de que enquanto o nível do mar não chegar ao segundo andar do "Empire States", nada será feito a respeito. Estão todos pensando em seus próprios problemas, sem considerar que o problema de um é o problema de todos. É curioso notar que o único acordo firmado foi um acordo financeiro, ainda que irrisório. É como se achassem que pode-se pagar para se livrar dos problemas do clima. Gostaria de falar sobre duas possíveis causas para o fracasso das negociações:

1. Egoismo - Como  já diz o velho ditado: "Farinha pouca, meu pirão primeiro". Esta parece ter sido a tônica das negociações. Ninguém queria abrir mão do "direito" de poluir, como se poluição e desenvolvimento estivessem indissociavelmente ligados. A maioria não consegue compreender que aqueles que conseguirem um desenvolvimento sustentável a partir de um novo paradigma que não envolva degradação ambiental obterá uma vantagem competitiva dificil de se alcançar. Não entendem também que de nada adianta ser rei de uma terra arrasada.

2. Inversão das prioridades - Fiquei impressionado com a ênfase que foi dada em estabelecer limites para emissão de carbono. E não vi ser mencionada nenhuma ação concreta para se atingir essas metas. É como se alguem quisesse construir uma casa começando pelo telhado. Além  do que, as emissões de carbono não são o único problema ambiental e não são a única causa do aquecimento. Ações objetivas como mudança na matriz energética, reflorestamento, reciclagem do lixo e mudança de padrões de consumo mal foram mencionados.

Fica a sensação que perdeu-se o bonde da oportunidade.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

COP-15 e o sexo dos anjos

Acredito que a ficha não caiu ainda para muita gente. Acabei de ver um comentário em uma notícia publicada pelo Terra afirmando ser o aquecimento global uma "fraude". Não consigo imaginar quem sairia ganhando com uma fraude como essas, mas talvez eu não seja tão imaginativo assim. Mas o fato é que o aquecimento global já é inegável há mais de 30 anos. E é inegável há mais de 20 que uma parte importante deste aquecimento tem origem na atividade humana (leia-se desmatamento e queima de combustíveis fósseis). Não faz o menor sentido discutir quanto desse aquecimento é por nossa causa. As pessoas não percebem que um pequeno aquecimento global por causas naturais e completamente inócuo, somado a outro pequeno aquecimento por causa humana, causa um grande aquecimento de proporções catastróficas. As pessoas não compreendem que estamos sendo forçados a nos deslocar para um novo estado climático que não pode ser facilmente revertido. Não entendem que reduzir as emissões de carbono em 15, 30 ou 50 % das emissões de 1990 pode ser completamente inócuo para evitar a mudança que já está em curso. E para piorar, preocupa-se demais em taxas de redução, mas não vejo se falar em ações concretas para efetivá-las. Ou a imprensa não dá importância aos métodos, apenas aos números. Pouco ou nada se fala em alterar hábitos, matriz energética ou modelo econômico. Pouco se faz para esclarecer de fato o que está acontecendo. Quase não vejo menção ao fato de que um dos primeiros efeitos do aquecimento global é justamente um resfriamento global, causado pelos bilhões de toneladas de gelo e água gelada que estão sendo lançados no oceano nesse instante. Estão mais preocupados com a inundação de Nova York, Veneza ou Londres do que com a redistribuição do regime de chuvas e a possível consequente savanização da Amazônia. E ninguém se lembra de que, ao contrário do que afirmava Adam Smith, a riqueza não pode ser gerada, tem que ser extraida. É invariavelmente é extraida do ambiente. Mais do que metas de redução de carbono, precisamos nos preparar para uma retirada sustentável. Precisamos de ações concretas para reverter o estrago que fizemos. E essas ações passam pela tecnologia. Ninguém pense que é possível fazer os 6 bilhões de pessoas que vivem hoje possam voltar a um estilo de vida do século XIII. Isso pioraria muito o estrago. Precisamos agora usar a energia e os recursos materiais de maneira mais responsável. Isso é feito gerando menos lixo, reciclando materiais e evitando o desperdício. Desperdício de alimentos, roupas, material de escritório, combustíveis, bens de consumo, automóveis. Mas para isso, é necessário mudar a maneira como tudo isso é produzido e comercializado. O mercado não pode ser movido pelo lucro, mas para o bem comum. Não sou contra o lucro, mas contra o lucro a qualquer custo. Lucro sem responsabilidade é prejuizo, porque alguém vai ter que pagar a conta. Mais cedo ou mais tarde.

Tenho a impressão que estamos perdendo muito tempo discutindo sobre o sexo dos anjos. Está na hora de acabarmos com a ações tímidas e passar para as resolutas. Se quisermos de fato salvar o planeta, a produção de ítens dispensáveis ou danosos, como armamentos, deve cessar imediatamente. O esforço científico e industrial precisa ser todo canalizado para a guerra contra o aquecimento global, que tem potencial para fazer muito mais vítimas do que a Segunda Guerra Mundial. Se a verba e os cérebros destinados às pesquisas militares fossem canalizados para o desenvolvimento de veículos e plantas industriais limpas, poderia ser feito em apenas um ano o que não foi feito em 20.

Estou cansado de ver pessoas ignorantes e egoistas falarem em "fraude do aquecimento global". Se existe fraude é no sentido de ocultar o que de fato está acontecendo. De ocultar o que de fato precisa ser feito por cada um de nós.

Site oficial do COP 15