sábado, 31 de julho de 2010

Quanto vale?

Uma das coisas que mais tem atormentado a minha mente ao longo da minha vida é o conceito de valor. Alguns valorizam as relações humanas, o trabalho, os hobbies, as artes. Outros valorizam o dinheiro, bens de consumo, status, poder. Atualmente, parece que o segundo grupo tem apresentado preferência em relação ao primeiro.

O dinheiro é um valor que pode ser quantificado. Ou usado como padrão para quantificar outros valores. Atualmente, o dinheiro tem sido usado como referência para mensurar o estrago feito pela depleção da camada de ozônio, ou o impacto ambiental provocado pelas emissões de carbono fóssil. Ou pelo desmatamento. É o que convencionou-se em chamar de custo ambiental. Este conceito provoca a crença errada de que para consertar os estragos que provocamos é apenas uma questão de assinar o cheque.

Isso nos leva a uma armadilha. Como avaliar algo em função de outro valor tão mutável? Diariamente, a cotação das moedas mudam uma em relação às outras. Se o dolar cair mais em relação ao real do que em relação ao euro, eu compro dólares usando reais, para depois vender em euros. E obter lucro com a operação.

Por que o dinheiro vale o que vale? Quem define isso? Afinal, por que o dinheiro vale alguma coisa?

No passado, o dinheiro era uma mercadoria. Normalmente era cunhado em moedas de ouro ou prata, metais valorizados em função da beleza e da durabilidade. Usar moedas era um tipo de escambo. Se alguem precisasse de ouro para fazer um colar ou uma coroa, as moedas eram simplesmente derretidas.

Um dia, alguém, provavelmente um banqueiro, concluiu que não era prático e nem seguro as pessoas andarem na rua carregando ouro, um metal particularmente pesado. Tão pesado que levou a minha irmã médica a comentar: "O ouro é mais bonito do que o chumbo, mas é tão venenoso quanto!". Como carregar ouro era inseguro e pouco prático, foi inventado o depósito bancário. A idéia era muito bacana (para o banco). A pessoa depositava o ouro no banco, que por sua vez fornecia um certificado de depósito bancário, o precursor do dinheiro de papel. Este certificado poderia ser usado como moeda na realização de negócios. Em troca, o banco era autorizado a emprestar o ouro depositado a outra pessoa, pagando juros ao depositante. Mas a pessoa que tomava emprestado, não levava ouro, mas outro certificado de depósito. Na prática, dois certificados de depósito acabavam sendo emitidos para o mesmo ouro. Às vezes, mais de dois.

Com o tempo, os bancos passaram a aceitar depósitos de certificados de depósitos de outros bancos. E emitir certificados de depósito dos certificados de depósitos. E a realizar empréstimos lastreados nestes certificados. Os governos acabaram assumindo o controle dessas operações, centralizando os depósitos de ouro e emitindo títulos de depósitos ao portador, com um valor arbitrário. Era o nascimento do dinheiro de papel.

Hoje, o ouro não é mais o principal lastro do dinheiro. O lastro hoje é baseado do Produto Interno Bruto, em um sistema de tamanha sofisticação e complexidade que eu tenho dificuldades para acompanhar. Mas o hábito de reemprestar o mesmo dinheiro diversas vezes continua atualmente. Aliás, esta usura desenfreada, tecnicamente conhecida como "alavancagem" foi apontada como a principal causa da atual crise econômica mundial.

Mas afinal, quanto vale o dinheiro? Como este valor de fato é definido? Quais os interesses por trás desta definição? Uma coisa tão importante como o dinheiro não poderia estar sujeito a variações de humor e a falências de economias. O dinheiro deveria ter valores tão estável como o metro, o quilograma ou a hora. Alguem poderia argumentar que em velocidades próximas da luz, o metro, o quilograma e a hora mudam de tamanho. Mas eu não conheço ninguém que se desloque em velocidades próximas a da luz. E quem viaja a essas velocidades não percebe a diferença.

Antes de nos atrevermos a quantificar os ativos ambientais em dólares ou reais, deveríamos encontrar um meio confiável de definir o valor desses dólares e reais. Em um mundo em constante mudança, algo precisa possuir um valor fixo. Matérias primas deveriam ter um valor fixo, e não variar seu valor ao sabor do mercado, favorecendo a especulação, que por sua vez favorece a concentração de riqueza e o estabelecimento da pobreza. Em última análise, os pobres são pobres porque alguém decidiu que assim seria.

sábado, 24 de julho de 2010

Solitário

Não ficaria alí por muito mais tempo. A hora da fuga estava próxima. Após dez anos preso naquele maldito asteróide, chegava a hora da liberdade. Agora, jantava tranquilamente. Amanhã pela manhã, a fuga. Embora sua nave não tivesse alcance muito grande, aproximadamente uns 600 mil quilômetros, ele contaria com algo capaz de ampliar este alcance diversas vezes. Pacientemente ele esperava a aproximação do grande e maciço planeta. O poderoso campo gravitacional de Júpiter lhe daria o impulso necessário para atingir, se não a Terra, pelo menos as colônias marcianas ou uma das diversas estações espaciais solares.

No entanto, caso não chegasse a este ponto com velocidade suficiente, ficaria preso em órbita do gigante gasoso, ou no pior caso, seria tragado pelo planeta, de onde não se conhecia retorno.

Seu asteróide não era absolutamente desconfortável. Ali tinha tudo do bom e do melhor. Conforto, espaço, baixa gravidade, boa alimentação, roupas caras e outros artigos que eventualmente uma ou outra nave de contrabandistas lhe traziam. Contudo, faltava-lhe a liberdade. Apesar de todos os confortos, aquele asteróide  era um esconderijo, onde Wilson escondia-se das perseguições políticas que sofria na República dos Mundos Exteriores, que só tinha república no nome, pois constituia em uma das mais legítimas ditaduras. Quando a perseguição tornou-se insustentável, Wilson exilou-se neste asteróide. A princípio não queria abandonar sua pátria e eventualmente conseguia fornecer algum apoio à Resistência. Afinal, a órbita excêntrica de seu asteróide tornava difícil a sua localização, dificultando as buscas da Guarda Republicanal. Mas após dez anos o espaço fora quase totalmente esquadrinhado. Localizar Wilson seria apenas uma questão de tempo, e ele não poderia ficar esperando.

Edgar era um de seus fornecedores. Conhecido como Ed Mercado, fornecia todo tipo de traquitanas tecnológicas para Wilson, que fora engenheiro antes de ser fugitivo. Graças a Ed, construira sua confortável fortaleza. Wilson em troca fornecia serviços como reparo de equipamentos, principalmente aqueles "importados" de Marte, aos quais Ed dava a sua garantia pessoal, que muitos consideravam melhor e mais completa do que a garantia de fábrica.

Um dia, Ed não apareceu com seus suprimentos. A princípio, achou que fosse um mero atraso. Mas depois de 10 dias, Wilson começou a ficar preocupado. Teriam prendido Ed? Não estariam neste exato momento tentando obter dele a localização de seu asteróide? Wilson sabia que mesmo as pessoas mais fieis e determinadas poderiam contar todos os segredos caso fossem devidamente torturadas. Wilson não poderia mais perder tempo.

Foi quando surgiu a idéia de usar Júpiter. Wilson sabia que a aproximação máxima ocorreria dali a 3 dias. Ainda possua suprimentos suficientes para permanecer ali mais uns 2 anos, ou para viajar por 2 anos. Então tomou a decisão.

A hora se aproximava agora. Todos os suprimentos já se encontravam na pequena nave. Sabia que sua manobra era arriscada, mas o risco maior era continuar onde estava. Por isso, precisava fazer tudo certo. Precisava interceptar Júpiter no momento certo e com a maior aproximação possível, para que pudesse obter  alta velocidade. Isso era importante, pois assim impossibilitaria qualquer tentativa de abordagem da Guarda Republicana. Isso significava que ao fim da viagem, teria que usar a tênue atmosfera de Marte para perder velocidade. Não poderia errar o alvo, ou se tornaria um cometa continuamente em órbita do Sol.

Havia várias semanas que Júpiter tomava a maior parte do céu. O espetáculo era maravilhoso, mas sabia que isso o colocava perigosamente perto do inimigo. Certo dia passou a apenas 500 mil quilômetros de Ganimedes, Podia ver com facilidade as grandes cúpulas da Cidade Ganimedes. Wilson teve o cuidado de apagar todas a luzes que pudessem ser vistas de fora e manter um silêncio de rádio absoluto. Contava que seu asteróide não chamasse mais atenção do que os milhares de outros asteróides que todos os dias se aproximavam de Júpiter.

Felizmente, na hora do lançamento Ganimedes encontrava-se do outro lado do planeta. Wilson sabia que teria somente uma chance. Seu lançamento precisava acontecer com uma precisão de segundos, ou erraria o alvo ao fim da jornada. Os motores iônicos foram acionados ao mesmo tempo que a lançadeira eletromagnética foi acionada, garantindo uma forte aceleração que imobilizou Wilson por vários minutos. Então os motores foram desligados levando a pequena nave a cair velozmente em direção ao planeta. Wilson teve que esperar quase 10 horas antes que estivesse a apenas a 1000 km da superfície gasosa. Neste momento, os motores foram novamente acionados. Quando finalmente foram desligados, a pequena nave de Wilson atingira mais de 500 mil km/h, velocidade que ainda aumentaria muito durante a sua viagem em direção ao Sol.

Quando a Guarda Republicana finalmente detectou a nave de Wilson, esta encontrava-se definitivamente fora de alcance. Mesmo que tentassem perseguí-lo, estaria confortavelmente dentro do território da República dos Planetas Terrestres muito tempo antes que pudesse ser alcançado.

Estava livre afinal. Mas mais do que nunca, encontrava-se solitário.

A Ilha

Por causa da tempestade da noite passada, a praia está atulhada de detritos. As ondas ainda batem com força nos rochedos, provocando um som ensurdecedor. Este é o meu quinto dia nesta maldita ilha, onde fiz um pouso de emergência com o meu jato FA18. Meu rádio não funciona direito e só tenho combustível para uns 15 minutos de vôo. O GPS ainda funciona, mas o localizador pifou junto com o rádio. Ontem acabou o meu estojo com ração de emergência e hoje o meu desjejum foi de caranguejos com coco. Felizmente o isqueiro ainda funciona, então não precisei comer caranguejo cru. Mas por via das dúvidas, estou mantendo o fogo aceso. Descobri que jogar algas marinhas no fogo faz bastante fumaça, o que talvez ajude uma eventual missão de resgate a me localizar. Apesar dos danos, o avião ainda está em condições de vôo, mas para onde eu iria com combustível para 15 minutos? De acordo com o GPS, minhas coordenadas são 10º 12´ 30´´ N e 109º 16´37´´ W. Estou entre nada e coisa nenhuma. A praia é longa, talvez o bastante para o A1 decolar, mas nunca tentei decolar com um jato em uma pista de areia.

A ilha é mais uma cratera, provavelmente algum vulcão extinto. Um pequeno contorno de areia com água dentro. Ao caminhar pela praia, encontrei um mastro de bandeira quebrado, um marco de concreto feito pelo governo francês e os restos de uma estação meteorológica automática, o que significa que às vezes alguém aparece por aqui. De acordo com o obelisco, o nome da ilha é Clipperton. Acho que não existe uma única ilha em que alguem não tenha pisado. Mas isso não melhora muito a minha situação.

Este é o décimo dia. Neste tempo, minha única companhia tem sido os albatrozes que fazem ninho aqui. Chove todo dia. Até agora, nenhuma missão de resgate. Não vieram nem mesmo consertar a estação metereorológia, que eu imagino estar abandonada há muito tempo.

Eu me vi pelo espelho retrovisor. Estou parecendo um animal, barbudo e cabeludo. Se eu não fizer algo a respeito, logo a loucura irá tomar conta de mim. Comecei a pensar em um plano maluco, para não dizer suicida. E se eu levantar vôo e subir até uns 20 mil pés? Talvez eu apareça em alguma tela de radar o tempo suficiente para ser localizado. Quando o combustível acabar, eu ejeto e espero o resgate dentro do bote salva-vidas. Eu não tenho muito tempo para decidir, pois logo as baterias não terão mais energia suficiente para dar partida na turbina. Talvez já nao tenha.

Este é o 12º dia e são 6 horas da manhã. Escolhi este horário porque o ar está mais frio e a decolagem pode ser mais fácil. Ontem eu limpei o melhor possível a praia. Não seria muito bom se um pedaço de palha de palmeira fosse tragado pelas turbinas. A maré acabou de baixar, o que é bom, porque isso deixa a areia mais compacta, facilitando a decolagem. A pressão do pneu da triquilha parece baixa, mas acho que não vai atrapalhar muito, pois eu posso aliviar o peso do nariz com o manche. Consegui dar partida nas turbina e estou apenas esperando a temperatura chegar ao ponto certo para tentar a decolagem. Estou escrevendo isso para o caso de meu plano não dar certo. Me desejem sorte.

...

Os radares do porta aviões Abraham Lincoln detectaram ás 6:12 AM a aproximação de uma aeronave FA18, logo identificada como pertencente ao Corpo de Fuzileiros Navais. A aeronave efetuou um pouso de emergência pois encontrava-se com pouco combustível. O piloto informou às autoridades que havia efetuado dias antes um pouso de emergência na Ilha de Clipperton, a uns 20km do local onde o porta-aviões realizava manobras há 12 dias...

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Gaia, mudança climática e retirada sustentável

É da autoria do cientista britânico James Lovelock a Teoria de Gaia. Para quem não sabe, esta teoria afirma que o planeta Terra possui a capacidade de autoregulação de suas condições ambientais, incluindo temperatura e composição química, assemelhando-se muito a um ser vivo. Conforme afirmação de Lovelock, para que a Terra seja um ser vivo, só falta a capacidade de reprodução. Esta teoria provocou muita polêmica nos anos 70 e 80 do século XX, quando era conhecida apenas como Hipótese Gaia, cujo nome é inspirado na divindade grega que representava a Terra. Esta personalização de Gaia rendeu muitas críticas da comunidade científica a Lovelock, ao mesmo tempo que fez com que a hipótese ganhasse apoio entre os grupos ambientalistas e esotéricos. Graças a diversas evidências científicas e ao apoio de vários cientistas, principalmente climatologistas e glaciologistas, a Hipótese Gaia acabou por ganhar o status de teoria, sendo formalmente aceita pela comunidade científica. São as previsões da Hipótese Gaia que guiam as ações do IPCC, o órgão consultivo da ONU sobre mudanças climáticas.

Em um de seus mais recentes trabalhos, o livro "A Vingança de Gaia", Lovelock discorre como a influência humana perturbou o delicado equilíbrio de Gaia, sendo o exemplo mais notório desta perturbação o atual aquecimento global. Segundo Lovelock, podemos ter ido longe demais nesta perturbação e estamos prestes a provocar uma alteração ambiental irreversível, da qual Gaia não será capaz de dar conta sozinha. Segundo ele, o desenvolvimento sustentável chegou tarde demais e somente uma "retirada sustentável" seria capaz de minimizar os efeitos dessa mudança. Além disso, somente ações proativas poderiam reverter o estrago já feito. Mas o que seria esta "retirada sustentável"?

Vivemos hoje em um contexto em que desenvolvimento está diretamente ligado ao consumo. Consumimos alimentos, roupas, produtos de limpeza e higiene, eletrodomésticos, computadores, celulares, automóveis. Quanto mais um povo consome, mais é considerado desenvolvido. Ora, o consumo implica em produção de novos itens e no descarte dos usados. Alguns bens que consumimos são duraveis. Compramos casas para durar 30 ou 40 anos. Outros nem tanto. Compramos carros para durar 10 anos, TVs para durar 5 e celulares para durar 6 meses. Isso sem falar no lixo que geramos e nas emissões de poluentes diversos. As grandes cidade estão se tornando cada vez mais insalubres graças a esta emissões, como dioxido de enxofre, monóxido de carbono, fuligens diversas, etc. O grande vilão do momento é o dioxido de carbono, devido a sua influência no efeito estufa, que é a capacidade da atmosfera terrestre de reter o calor solar. O excedente de dioxido de carbono está aumentando esta capacidade e provocando um aumento na temperatura média do planeta. Mas este é apenas um dos muitos aspectos da mudança climática. Alteramos o clima quando desmatamos florestas para uso da agricultura, pecuária, mineração, hidreletricidade, etc. Alteramos o clima quando lançamos poluentes nos rios e mares, alterando sua química e transtornando o equilíbrio ecológico. Alteramos o clima quando queimamos o nosso lixo ou quando o lançamos a céu aberto. Alteramos o clima quando substituimos florestas nativas por uma monoculturas de pinheiros ou eucalíptos, que por serem mais escuros, absorvem mais energia solar e aquecem o ambiente. Alteramos o clima quando jogamos fora o nosso carro velho para comprar um novo, pois para fabricá-lo foi necessário extrair o ferro do solo, forjar o aço, destilar o petróleo, purificar o alumínio e inúmeras outras atividades, cada uma delas ambientalmente impactante.

Ficamos então com a impressão de que, para não provocar impacto no ambiente, deveríamos viver como nos velhos tempos, quando extraíamos o nosso alimento do solo e fazíamos as nossas próprias roupas e utensílios e iluminávamos a noite com a luz de um lampião de óleo. Mas isso simplesmente não é mais possível. Hoje somos mais de 6 bilhões de pessoas, e sem a agricultura mecanizada e a produção industrializada, não é mais possível manter esta população. Mesmo que todos abandonassem as cidades e se dirigissem aos campos, não haveria lugar suficiente para que todos plantassem seu alimento, principalmente sem utilizar métodos modernos. Se por um decreto fossemos obrigados a abandonar de uma vez todos os recursos tecnológicos de que dispomos, em pouco tempo o caos e a barbárie se instalariam. Milhões morreriam sem alimentos e outros milhões de doenças ou guerras que inevitavelmente surgiriam em consequência das disputas pelos poucos recursos disponíveis. Portanto, não podemos abandonar a ciência e a tecnologia. O que precisamos é de um meio de utilizar melhor os recursos de que dispomos. Para que possamos dar um fôlego a Gaia, precisamos reduzir a praticamente zero os recursos que extraimos do planeta. Isso significa que teríamos que nos virar com o que já extraimos. Isso é o que constitui a retirada sustentável. Para isso, precisamos alterar radicalmente nossa estrutura de consumo. Devemos fabricar automóveis para durar 50 anos, TVs que durem 20 e celulares que durem 10. Nosso lixo precisa ser 100% reciclado e o nosso conbsumo de energia precisa ser mínimo. Teríamos que aperfeiçoar a eficiência energética de todos os nosso equipamentos: automóveis, eletrodomésticos, indústrias. Talvez o alimento tenha que ser racionado, mas o atual padrão de consumo, aliados às perdas no transporte ou por má conservação, talvez possa ser drásticamente reduzido sem que isso realmente implique em uma redução na qualidade da alimentação. A maior preocupação é com as pessoas que ainda não ingressaram no padrão de consumo moderno, e que constituem a maioria da população mundial, mas que almejam faze-lo. Mas se considerarmos que 10% da população mundial responde por 90 do consumo, percebemos que uma redistribuição de recursos pode resolver muita coisa.

A primeira vítima de uma retirada sustentável é o modelo de produção capitalista industrial, baseado no consumo. No início dos anos 90 do século XX, muitos diziam que a queda da União Soviética representava a vitória do capitalismo. No entanto, o que muitos não entendiam é que tanto o capitalismo como o comunismo são aspectos do sistema de produção industrial, baseado no consumo de bens e mercadorias. A diferença é que enquanto o capitalismo pregava o mercado livre, o comunismo pregava o mercado controlado pelo Estado. Ambos os sistemas não são sustentáveis pois se baseiam na falsa premissa de que a riqueza pode ser produzida, quando na verdade ela precisa ser extraida do meio-ambiente. Uma economia sustentável deve basear-se em um modelo que leve em conta este princípio. Os conceitos de riqueza e propriedade talvez tenham que ser revistos. Deixo este desafio para os filósofos e economistas, mas eles não podem demorar muito tempo.

Talvez seja indispensável que os países que se encontram em desenvolvimento sejam os primeiros a adotar o novo modelo, principalmente porque o planeta simplesmente não possui recursos suficientes para garantir a esses países um padrão de desenvolvimento americano ou europeu. Infelizmente, ainda não existe formalmente este novo modelo econômico. No entanto, algumas atitudes devem ser adotadas de imediato. Cito a seguir algumas delas:

1. Coleta de informação estratégica

Talvez o maior desafio encontrado pelos governantes (ou pelo menos pelos governantes sérios) é a tomada de decisão baseada em informação confiável. Historicamente, todos os governos, em maior ou menor grau, tem se empenhado em coletar informações sobre a população ou sobre as condições econômicas. Hoje um novo tipo de informação passou a ser necessária. É aquela informação sobre os recursos ambientais e de que maneira a atividade humana está afetando estes recursos. É a informação sobre ciência e tecnologia que pode ser usada para tomar decisões estratégicas. mais do que nunca, é necessário refinar a qualidade da informação de que dispõem os governantes e os formadores de políticas públicas. Mais do que nunca, é indispensável distinguir o joio do trigo.

2. Eficiência energética e de materiais

A maioria dos recursos disponíveis para uma nação são finitos e não renováveis. Recursos hídricos, reservas minerais, matas nativas e terras agricultáveis são exemplos desses recursos. Otimizar a utilização desses recursos é indispensável. O combate ao desperdício deve ser a tônica. Um exemplo que eu já citei anteriormente é a utilização da energia em veículos. Um veículo a combustão convencional joga pelo cano de escape 85% da energia produzida pela queima do combustível. Num contexto de retirada sustentável, a adoção de veículos elétricos não é simplesmente uma opção interessante. É mandatório. Assim como a adoção de materiais de construção isolantes térmicos, para minimizar a utilização de ar condicionado no verão ou aquecedores no inverno. A coleta de lixo seletiva não é uma opção. É obrigatório. A reciclagem não deve ser simplesmente um bom negócio, mas a base de uma nova economia.

3. Extinção da guerra

Na nossa situação atual, qualquer guerra é um verdadeiro tiro no pé. As guerras do Iraque e do Afeganistão tem sido apontadas como as principais causas da econômica mundial. Uma eventual Terceira Guerra Mundial aniquilaria totalmente nossa economia e arruinaria a nossa civilização, mesmo que não fossem usadas armas nucleares. Isso aconteceria não pela destruição causada pela guerra, mas pelos custos da guerra em sí. E em um contexto em que se fala em preservar o meio-ambiente, uma guerra de qualquer tipo não faz o menor sentido.

4. Educação ampla, geral e irrestrita

Nada do que foi mencionado anteriormente será possível sem uma educação universal, de qualidade, gratuita e acessível. Este é um aspecto que simplesmente tem sido subestimado. Os professores deveriam ser os profissionais melhor qualificados e mais bem pagos do mercado. As escolas deveriam ser as instituições mais equipadas, valorizadas e admiradas. O ensino deveria ser tão bom e uma experiência tão prazerosa que as faltas de alunos frossem raríssimas. As empresas deveriam proporcionar todo tipo de incentivo à educação, inclusive a redução de jornada de trabalho.

Algumas pessoas podem achar que tudo isso não passa de uma utopia. Mas somente esta utopia pode salvar a nós e ao mundo em que vivemos.

Para saber mais:

"A Vingança de Gaia"
Autor: James Lovelock
Editora Intrínseca

sábado, 10 de julho de 2010

Elétrico ou Etanol? O Melhor de Dois Mundos.

O preço elevado é apresentado continuamente como uma das desvantagens dos carros elétricos. Já vi diversas reportagens a respeito do Palio elétrico, desenvolvido por Itaipu, mencionarem algum valor entre R$130.000,00 e R$140.000,00 para cada exemplar do veículo. O que os jornalistas e o público não conseguem compreender é que R$140.000,00 por um protótipo de automóvel é uma verdadeira pechincha! Protótipos de veículos convencionais a gasolina/etanol costumam custar milhões! Mesmo quando tratam-se de atualizações de versões anteriores. Desta forma, o sucesso obtido pelo time de Itaipu é algo digno de nota. Portanto, devemos tomar alguns cuidados ao falar sobre preço de veículos elétricos. Isso não significa que tudo esteja às mil maravilhas. Pelo sistema tributário atual, torna-se impossível no Brasil viabilizar a fabricação dos elétricos. Este "garrote fiscal" quase teve um alívio com o pacote de incentivo do governo que foi suspenso na última hora, sob a alegação "avaliar melhor o assunto". Ao que parece, a os produtores de álcool reclamaram do que poderia se constituir em uma concorrência incômoda para o etanol, menina dos olhos sustentável no governo Lula, embora seja uma tecnologia desenvolvida há mais de 30 anos. E esta ciumeira pode colocar em risco a indústria automobilística nacional.

É evidente que os veículos elétricos vieram pra ficar. Ao contrário das outras tentativas, desta vez o elétrico tem a seu favor o elevado preço dos combustíveis (inclusive o etanol) e o inquestionável aquecimento global. Some-se a isso os progressos na eletrônica de potência e na capacidade das baterias. E não se enganem: tão logo estas baterias sejam fabricadas na escala da indústria automobilística, elas cairão de preço, aumentarão a sua capacidade e diminuirão de peso e tamanho. E muito. Portanto, não faz sentido fazer de conta que esta revolução não está acontecendo. Caso não haja investimento e apoio oficial, em poucos anos o Brasil verá suas exportações fortemente prejudicadas. E quando isso acontecer, teremos que pagar royalties para comprar a tecnologia que outros desenvolveram. Como já aconteceu com a indústria informática nacional, por exemplo.

Um erro quem tem sido cometido frequentemente é apresentar o veículo elétrico como competidor do veículo flex. Talvez algum dia, os veículos a combustão interna serão peças de museu. Mas ainda levamos algum tempo antes de chegar lá, mesmo que a capacidade das baterias seja multiplicada por 100. Isto porque a energia para mover os veículos precisa ser gerada de alguma forma. Nossa infraestrutura elétrica atual dá conta de um bom crescimento da frota elétrica, caso seja usada somente a capacidade ociosa do horário noturno. No entanto, mais cedo ou mair tarde esta capacidade terá que ser complementada. Mais energia terá que ser gerada para dar conta deste crescimento. Por outro lado, caso seja mantido o modelo atual de veículos flex, com o atual crescimento da frota, em pouco tempo a produção de etanol não será suficiente para atender a demanda. A área plantada de cana de açucar terá que aumentar a níveis insuportáveis para o meio-ambiente, com o sacrifício de outras culturas, pastagens ou florestas. Provavelmente florestas. Só existe uma maneira de impedir que isso aconteça: reduzir drasticamente o consumo de etanol nos veículos. Isso pode ser obtido de duas formas. A primeira é deixar o carro em casa, o que em alguns casos pode ser feito com vantagens. A segunda é aprimorar a tecnologia para reduzir o consumo específico dos veículos. Devido a algumas características termodinâmicas, os veículos a etanol são um pouco mais eficientes que os movidos a gasolina, mas nâo muito. É graças a esta maior eficiência que um veículo flex é um pouco mais potente quando movido a etanol do que com gasolina, mesmo que esta última tenha maior poder calórico. No entanto, é notório que estes veículos são extremamente ineficientes. Um motor a combustão interna de ciclo Otto, como são os motores flex, possuem uma eficiência máxima que varia entre 25 a 30%, dependendo da tecnologia utilizada (duas ou quatro válvulas por cilindro, injeção indireta ou direta, comando de válvulas central, no cabeçote ou eletrônico, aspirado ou turbo, etc). Mas esta eficiência máxima só ocorre em determinadas situações. O motor precisa estar operando em sua rotação de torque máximo, ou próximo a ela. A carga do motor também precisa ser próxima da carga máxima. Um automóvel nunca opera nessas condições. A rotação varia de acordo com a velocidade. Em percursos urbanos, normalmente a rotação é muito mais baixa que a de torque máximo. Em percursos rodoviários, quando a estrada é de boa qualidade, o automóvel anda em condições mais proximas da ideal. É por isso que o consumo é menor na estrada do que na cidade. Com tudo isso, a eficiência média de um automóvel acaba ficando em torno dos 15%. Ou menos. Isso significa que estamos jogando fora pelo menos 85% da energia gerada pela queima do combustível. E este quadro pode ser ainda pior, pois normalmente um automóvel possui um motor mais potente do que realmente seria necessário em termos de potência. Um automóvel com motor de 1.0 litro desenvolve aproximadamente 75 CV de potência e 10 kgfm de torque. O mesmo torque pode ser obtido através de um motor elétrico de 15 CV, com a vantagem de que este torque está disponível deste a rotação zero até a máxima. No motor a combustão, este torque só vai ocorrer em rotações elevadas. A vantagem é que este motor de 75 CV permite que o veículo alcance a "incrível" marca de 156 km/h, contra os 120 km/h que seriam alcançados através do motor elétrico. Como esta é a velocidade máxima em nossas estradas, não estamos perdendo grande coisa. Mas a conclusão que tiramos é que basta um motor de 15 CV para mover um automóvel com um desempenho aceitável. Um veículo híbrido com um motor flex de 15 CV e outro elétrico de mesma potência seria mais eficiente em consumo de combustível por dois motivos: por usar um motor a combustão 5 vezes menor e por trabalhar em regimes contínuos, pois seria acionado somente para mover o gerador que carrega as baterias. Então estamos falando de um consumo de combustível pelo menos 10 vezes menor.

Veículos híbridos flex de alta eficiência seriam o meio de transição para um sistema 100% elétrico. Nos daria tempo para desenvolver novas formas seguras e ambientalmente corretas de produzir energia. Por este motivo, a indústria do etanol deveria apoiar o desenvolvimento dos veículos elétricos, sem medo de perder mercado, talvez até ampliando o mercado atual. Sem precisar ampliar a atual área plantada.

Esta é a hora do Brasil ter o seu próprio projeto de veículos elétricos. Se não fizermos isso, podem estar certos de que outros o farão. E nós teremos que pagar royalties para usar híbridos flex.