sexta-feira, 23 de julho de 2010

Gaia, mudança climática e retirada sustentável

É da autoria do cientista britânico James Lovelock a Teoria de Gaia. Para quem não sabe, esta teoria afirma que o planeta Terra possui a capacidade de autoregulação de suas condições ambientais, incluindo temperatura e composição química, assemelhando-se muito a um ser vivo. Conforme afirmação de Lovelock, para que a Terra seja um ser vivo, só falta a capacidade de reprodução. Esta teoria provocou muita polêmica nos anos 70 e 80 do século XX, quando era conhecida apenas como Hipótese Gaia, cujo nome é inspirado na divindade grega que representava a Terra. Esta personalização de Gaia rendeu muitas críticas da comunidade científica a Lovelock, ao mesmo tempo que fez com que a hipótese ganhasse apoio entre os grupos ambientalistas e esotéricos. Graças a diversas evidências científicas e ao apoio de vários cientistas, principalmente climatologistas e glaciologistas, a Hipótese Gaia acabou por ganhar o status de teoria, sendo formalmente aceita pela comunidade científica. São as previsões da Hipótese Gaia que guiam as ações do IPCC, o órgão consultivo da ONU sobre mudanças climáticas.

Em um de seus mais recentes trabalhos, o livro "A Vingança de Gaia", Lovelock discorre como a influência humana perturbou o delicado equilíbrio de Gaia, sendo o exemplo mais notório desta perturbação o atual aquecimento global. Segundo Lovelock, podemos ter ido longe demais nesta perturbação e estamos prestes a provocar uma alteração ambiental irreversível, da qual Gaia não será capaz de dar conta sozinha. Segundo ele, o desenvolvimento sustentável chegou tarde demais e somente uma "retirada sustentável" seria capaz de minimizar os efeitos dessa mudança. Além disso, somente ações proativas poderiam reverter o estrago já feito. Mas o que seria esta "retirada sustentável"?

Vivemos hoje em um contexto em que desenvolvimento está diretamente ligado ao consumo. Consumimos alimentos, roupas, produtos de limpeza e higiene, eletrodomésticos, computadores, celulares, automóveis. Quanto mais um povo consome, mais é considerado desenvolvido. Ora, o consumo implica em produção de novos itens e no descarte dos usados. Alguns bens que consumimos são duraveis. Compramos casas para durar 30 ou 40 anos. Outros nem tanto. Compramos carros para durar 10 anos, TVs para durar 5 e celulares para durar 6 meses. Isso sem falar no lixo que geramos e nas emissões de poluentes diversos. As grandes cidade estão se tornando cada vez mais insalubres graças a esta emissões, como dioxido de enxofre, monóxido de carbono, fuligens diversas, etc. O grande vilão do momento é o dioxido de carbono, devido a sua influência no efeito estufa, que é a capacidade da atmosfera terrestre de reter o calor solar. O excedente de dioxido de carbono está aumentando esta capacidade e provocando um aumento na temperatura média do planeta. Mas este é apenas um dos muitos aspectos da mudança climática. Alteramos o clima quando desmatamos florestas para uso da agricultura, pecuária, mineração, hidreletricidade, etc. Alteramos o clima quando lançamos poluentes nos rios e mares, alterando sua química e transtornando o equilíbrio ecológico. Alteramos o clima quando queimamos o nosso lixo ou quando o lançamos a céu aberto. Alteramos o clima quando substituimos florestas nativas por uma monoculturas de pinheiros ou eucalíptos, que por serem mais escuros, absorvem mais energia solar e aquecem o ambiente. Alteramos o clima quando jogamos fora o nosso carro velho para comprar um novo, pois para fabricá-lo foi necessário extrair o ferro do solo, forjar o aço, destilar o petróleo, purificar o alumínio e inúmeras outras atividades, cada uma delas ambientalmente impactante.

Ficamos então com a impressão de que, para não provocar impacto no ambiente, deveríamos viver como nos velhos tempos, quando extraíamos o nosso alimento do solo e fazíamos as nossas próprias roupas e utensílios e iluminávamos a noite com a luz de um lampião de óleo. Mas isso simplesmente não é mais possível. Hoje somos mais de 6 bilhões de pessoas, e sem a agricultura mecanizada e a produção industrializada, não é mais possível manter esta população. Mesmo que todos abandonassem as cidades e se dirigissem aos campos, não haveria lugar suficiente para que todos plantassem seu alimento, principalmente sem utilizar métodos modernos. Se por um decreto fossemos obrigados a abandonar de uma vez todos os recursos tecnológicos de que dispomos, em pouco tempo o caos e a barbárie se instalariam. Milhões morreriam sem alimentos e outros milhões de doenças ou guerras que inevitavelmente surgiriam em consequência das disputas pelos poucos recursos disponíveis. Portanto, não podemos abandonar a ciência e a tecnologia. O que precisamos é de um meio de utilizar melhor os recursos de que dispomos. Para que possamos dar um fôlego a Gaia, precisamos reduzir a praticamente zero os recursos que extraimos do planeta. Isso significa que teríamos que nos virar com o que já extraimos. Isso é o que constitui a retirada sustentável. Para isso, precisamos alterar radicalmente nossa estrutura de consumo. Devemos fabricar automóveis para durar 50 anos, TVs que durem 20 e celulares que durem 10. Nosso lixo precisa ser 100% reciclado e o nosso conbsumo de energia precisa ser mínimo. Teríamos que aperfeiçoar a eficiência energética de todos os nosso equipamentos: automóveis, eletrodomésticos, indústrias. Talvez o alimento tenha que ser racionado, mas o atual padrão de consumo, aliados às perdas no transporte ou por má conservação, talvez possa ser drásticamente reduzido sem que isso realmente implique em uma redução na qualidade da alimentação. A maior preocupação é com as pessoas que ainda não ingressaram no padrão de consumo moderno, e que constituem a maioria da população mundial, mas que almejam faze-lo. Mas se considerarmos que 10% da população mundial responde por 90 do consumo, percebemos que uma redistribuição de recursos pode resolver muita coisa.

A primeira vítima de uma retirada sustentável é o modelo de produção capitalista industrial, baseado no consumo. No início dos anos 90 do século XX, muitos diziam que a queda da União Soviética representava a vitória do capitalismo. No entanto, o que muitos não entendiam é que tanto o capitalismo como o comunismo são aspectos do sistema de produção industrial, baseado no consumo de bens e mercadorias. A diferença é que enquanto o capitalismo pregava o mercado livre, o comunismo pregava o mercado controlado pelo Estado. Ambos os sistemas não são sustentáveis pois se baseiam na falsa premissa de que a riqueza pode ser produzida, quando na verdade ela precisa ser extraida do meio-ambiente. Uma economia sustentável deve basear-se em um modelo que leve em conta este princípio. Os conceitos de riqueza e propriedade talvez tenham que ser revistos. Deixo este desafio para os filósofos e economistas, mas eles não podem demorar muito tempo.

Talvez seja indispensável que os países que se encontram em desenvolvimento sejam os primeiros a adotar o novo modelo, principalmente porque o planeta simplesmente não possui recursos suficientes para garantir a esses países um padrão de desenvolvimento americano ou europeu. Infelizmente, ainda não existe formalmente este novo modelo econômico. No entanto, algumas atitudes devem ser adotadas de imediato. Cito a seguir algumas delas:

1. Coleta de informação estratégica

Talvez o maior desafio encontrado pelos governantes (ou pelo menos pelos governantes sérios) é a tomada de decisão baseada em informação confiável. Historicamente, todos os governos, em maior ou menor grau, tem se empenhado em coletar informações sobre a população ou sobre as condições econômicas. Hoje um novo tipo de informação passou a ser necessária. É aquela informação sobre os recursos ambientais e de que maneira a atividade humana está afetando estes recursos. É a informação sobre ciência e tecnologia que pode ser usada para tomar decisões estratégicas. mais do que nunca, é necessário refinar a qualidade da informação de que dispõem os governantes e os formadores de políticas públicas. Mais do que nunca, é indispensável distinguir o joio do trigo.

2. Eficiência energética e de materiais

A maioria dos recursos disponíveis para uma nação são finitos e não renováveis. Recursos hídricos, reservas minerais, matas nativas e terras agricultáveis são exemplos desses recursos. Otimizar a utilização desses recursos é indispensável. O combate ao desperdício deve ser a tônica. Um exemplo que eu já citei anteriormente é a utilização da energia em veículos. Um veículo a combustão convencional joga pelo cano de escape 85% da energia produzida pela queima do combustível. Num contexto de retirada sustentável, a adoção de veículos elétricos não é simplesmente uma opção interessante. É mandatório. Assim como a adoção de materiais de construção isolantes térmicos, para minimizar a utilização de ar condicionado no verão ou aquecedores no inverno. A coleta de lixo seletiva não é uma opção. É obrigatório. A reciclagem não deve ser simplesmente um bom negócio, mas a base de uma nova economia.

3. Extinção da guerra

Na nossa situação atual, qualquer guerra é um verdadeiro tiro no pé. As guerras do Iraque e do Afeganistão tem sido apontadas como as principais causas da econômica mundial. Uma eventual Terceira Guerra Mundial aniquilaria totalmente nossa economia e arruinaria a nossa civilização, mesmo que não fossem usadas armas nucleares. Isso aconteceria não pela destruição causada pela guerra, mas pelos custos da guerra em sí. E em um contexto em que se fala em preservar o meio-ambiente, uma guerra de qualquer tipo não faz o menor sentido.

4. Educação ampla, geral e irrestrita

Nada do que foi mencionado anteriormente será possível sem uma educação universal, de qualidade, gratuita e acessível. Este é um aspecto que simplesmente tem sido subestimado. Os professores deveriam ser os profissionais melhor qualificados e mais bem pagos do mercado. As escolas deveriam ser as instituições mais equipadas, valorizadas e admiradas. O ensino deveria ser tão bom e uma experiência tão prazerosa que as faltas de alunos frossem raríssimas. As empresas deveriam proporcionar todo tipo de incentivo à educação, inclusive a redução de jornada de trabalho.

Algumas pessoas podem achar que tudo isso não passa de uma utopia. Mas somente esta utopia pode salvar a nós e ao mundo em que vivemos.

Para saber mais:

"A Vingança de Gaia"
Autor: James Lovelock
Editora Intrínseca

3 comentários:

  1. Gilvan,

    Muito interessante o texto. Tenho algumas contribuições.

    Em primeiro lugar gostaria de sugerir um nome ao novo modelo: "Sustentalismo" Chega de pensar no Capitalismo x Socialismo.

    Outra coisa, simplesmente passar para os veículos elétricos seria muito pouco, eliminar a maioria dos veículos que utiliza qualquer forma de energia que não a humana é imprescindível.

    Outras coisas que são necessárias:
    Um estilo de vida muito mais simples (consumo reduzido a praticamente alimentação natural, e bens muito, mas muito duráveis), um retorno de muitas pessoas ao campo trabalhando em cooperativas, redução do transporte de mercadorias a praticamente zero, elas devem ser consumidas localmente.

    Ou seja, a mudança deveria ser radical, e todos no fundo,sabemos que ela não ocorrerá por escolha da humanidade, será preciso que a natureza nos extingua ou pelo menos termine com a maioria de nós humanos, para que o equilíbrio seja mantido. Ai quem sabe uma nova humanidade surja com o conhecimento necessário para um novo desenvolvimento realmente sustentável. Vivendo no mais perfeito "Sustentalismo"

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  2. Não creio que um retorno da maioria das pessoas ao campo seria recomendável. De acordo com Lovelock, esta atitude seria na verdade desastrosa. Ele propõe mesmo que os alimentos sejam sintetizados, de maneira a usar o mínimo possível de recursos do meio-ambiente. Em outras palavras, deixar que Gaia se recupere sozinha. Tudo isso tem que ser muito pesado e analizado. Uma escolha errada poder ser fatal. Quanto ao uso de veículos com energia humana (bicicletas e afins), isso é ideal para curtas distâncias. Contudo, como a maior parte da nossa necessidade de transporte é para trabalho, seria necessário ou que todos trabalhassem próximo de casa (o que pode ser inviável) ou o trabalho em casa, ou home office seja universalmente adotado. Eu sou favorável a esta última opção.

    Gostei do nome Sustentalismo e talvez eu passe a adotá-lo. Mas precisamos muito mais do que o nome. precisamos do modelo. Alguem se habilita?

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  3. muito bom o texto.
    Tarefa dificil.

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