quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Veículos elétricos e a indústria do petróleo

Vocês acharam o post anterior complicado? Eu também. É difícil explicar certas coisas em poucas palavras, principalmente se tentamos acrescentar evidências. Eu não fiquei satisfeito com a minha última exposição e resolvi abordar um pouco mais o assunto. Mas desta vez não vou elaborar muito o tema, apenas expor as minhas conclusões.

A maioria das pessoas não sabe, mas o automóvel praticamente nasceu elétrico. As primeiras experiências eram máquinas a vapor, mas a partir dde 1830 já havia automóveis elétricos. Contudo, seu uso era restrito devido a limitada capacidade dos motores e baterias da época. No final do século XIX, havia três opções possíveis para motorização de automóveis: a vapor, a gasolina e elétrico. Embora costume-se creditar a invenção do automóvel a Karl Benz, já havia vários experimentos com relativo sucesso usando motores a vapor e elétricos. Por volta do ano 1900, a maioria dos automóveis eram elétricos. O próprio Santos Dumont possuia um automóvel elétrico, com o qual se deslocava pela elegante Paris (isso quando não o fazia de dirigível ou com o seu charmoso Demoiselle).



Isso acontecia porque a eficiência dos motores a combustão ainda era muito baixa, aliada aos problemas de controle de potência e de transmissão. O motor elétrico era mais eficiente e mais facil de controlar. As primeiras corridas de automóveis eram dominadas pelos velozes elétricos. Foi um elétrico que pela primeira vez bateu o recorde dos 100 km/h, mesmo antes dos aviões fazerem o mesmo.




Quando a eficiência dos motores a gasolina atingiu um paramar aceitável, estes tornaram-se um padrão, desbancando os elétricos. Isso em virtude de sua autonomia muito superior e do baixíssimo preço da gasolina na época. Numa época em que não havia preocupações ambientais, isso foi suficiente para levar os elétricos ao esquecimento. Simplesmente a pesquisa na área foi abandonada e nenhum avanço surgiu até a década de 1960, quando por motivos ambientais, o elétrico voltou a ser cogitado. A crise do petróleo levou a outras tentativas nas décadas de 1970 e 1980, mas nenhuma delas resultou em mudança. Um paradigma havia se estabelecido, e a inércia  social, aliada aos interesses da indústria, impediram o desenvolvimento do veículo elétrico economicamente viável.

Entre 1996 e 1999, a General Motors lançou o EV1, veículo totalmente elétrico, que era comercializado somente pelo sistema de leasing. O carro era elegante e tinha um excelente desempenho, com um alcançe bastante aceitável, entre 80 e 140 km e a velocidade alcançava a incrível marca de 290 km/h.






Por algum motivo misterioso, entre 2003 e 2004, a GM simplesmente recolheu de circulação todos os EV1 do mercado, exercendo seu direito ao final dos contratos de leasing. Estes veículos foram simplesmente destruidos.



Mas um fato novo está mudando este quadro. A constatação de que o aquecimento global, provocado pelo efeito estufa excessivo resultante das emissões de gás carbono de nossa economia indurtrial, está provocando o derretimento acelerado da calota polar do Ártico, provocou o pânico na sociedade. Uma corrida pelo automóvel de emissões baixas o mesmo nulas está em marcha e ao que tudo indica, é um movimento irreversível. A preocupação existente entre os ambientalistas é de que este movimento tenha chegado tarde demais para reverter as mudanças no clima. Como o tempo entre o  surgimento de uma nova tecnologia e sua popularização pode variar entre 20 e 40 anos (veja como exemplo o próprio automóvel, o avião, a televisão, o telefone, o celular e o computador pessoal), encontramo-nos no estágio de utilização dos elétricos que deveríamos estar a 40 anos atrás. Para corrigir isso, ações concretas dos governos e da indústria devem ser tomadas no sentido de incentivar e apressar a transição (posteriormente tratarei com mais detalhes o problema da mudança climática).

Por outro lado, podemos considerar que a tecnologia elétrica possui mais de 170 anos e não 40. Encarando assim, podemos ter uma esperança de que a mudança de paradigma se acelere e consigamos alcançá-la não em 40 ou 20 anos, mas em 5.

Apresento abaixo os principais motivos para realizar esta mudança:

1. Para conter a mudança climática, é necessário não somente reduzir as emissões de carbono, mas retirar grandes quantidades de carbono que já se encontram na atmosfera. O atual modelo de combustíveis fósseis não permite este ajuste;

2. O precioso petróleo, fonte de inúmeros insumos e matérias primas está em vias de se esgotar. O consumo de petróleo já está crescendo mais rápido do que a produção e se as economias continuarem no atual rítmo de crescimento (mesmo com a crise econômica), em poucos anos a curva da produção e do consumo irão se cruzar. Nesta hora, vai faltar petróleo e o seu preço irá às alturas;

3. Em um contexto econômico como o nosso, fortemente dependente de energia, é inconcebível usar esta mesma energia com uma eficiência de 20%, quando são possíveis 80 ou 90%.

Não menciono aqui outras vantagens do VE, como a operação absolutamente silenciosa (tanto que alguns fabricantes estudam a adoção de um  ruido de motor artificial como forma de alertar os pedestres da aproximação do veículo), simplicidade de manutenção, emissão zero de poluentes (o gás carbônico não é o único poluente emitido pela queima de gasolina) e direção mais simples. Contudo, os veículos elétricos ainda possuem uma desvantagem, a mesma que impediu a sua popularização no início do século XX: a autonomia. Mas este é o assunto do próximo post.

Para saber mais:

http://pt.wikipedia.org/wiki/General_Motors_EV1
http://www.lps.usp.br/lps/arquivos/conteudo/grad/dwnld/CarroEletrico2005.pdf
http://www.maxicar.com.br/old/reporter/carroseletricos.asp

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